terça-feira, 25 de julho de 2017

Confissões de um leitor apaixonado: (Con)Vivendo com Livros

No dia 23 de julho o blog comemorou 6 anos de existência, insistência e resistência literária e, hoje, dia 25 de julho, comemoramos o Dia do Escritor. Em homenagem a essas duas datas, posto hoje uma crônica minha, já publicada em antologia do Grêmio Barramansense de Letras (Grebal), mas ainda inédita no sarau. Na crônica de hoje, conto um pouco da minha paixão por livros, minha trajetória como leitor.
Em tempo: hoje, às 20h, em comemoração ao Dia do Escritor e aos 6 anos do blog, o Sarau Solidões Coletivas fará uma intervenção poética relâmpago “em cima da hora”, em frente ao Casarão das Artes em ruína, na subida para a Catedral Nossa Senhora da Glória, no centro da cidade de Valença/RJ.
(Con)Vivamos sempre com Livros, amigos leitores, apaixonados seguidores da boa leitura, eternos companheiros dessa trajetória literária!

(Con)Vivendo com Livros

É infalível: quem me visita e constata a biblioteca caótica que tenho em casa acaba me perguntando como consigo viver no meio de tantos livros. Nessas horas, costumo dar um sorriso sem graça e balbuciar declarações quase sem sentido e completamente vagas: “ah, vou levando” (como se a pergunta fosse “como vai sua vida?”) ou “a gente vai convivendo” (como se a dúvida fosse “como está o seu casamento?”). Evito a resposta real, seria complicado explicar.
            Por muito tempo, me expressar foi um grande mistério: as palavras que dançavam livres em meus pensamentos, quando saíam de minha boca, alcançavam o mundo de maneira atropelada e atrapalhada, chegando aos ouvidos dos outros desfiguradas. Falar era um parto, um atirar-se cego em tenebrosa roseira; as palavras me doíam como espinhos e esse era meu grande desafio: domar meu medo delas, descobrir como chegar na rosa sem me machucar demais, dominar a linguagem.
            Apesar de tímido e pouco comunicativo, aprendi facilmente a ler. Certo dia, minha madrinha, que era professora numa escola particular de um município vizinho, propôs que eu fosse com ela para o trabalho. Como eu adorava passear, aceitei logo. Chegando lá, informaram que eu não poderia ficar na sala de aula (e nem queria, pois significava pôr à prova a minha [in]capacidade comunicativa), restando-me esperar minha madrinha na biblioteca da escola. E o que uma criança que já aprendeu a ler poderia fazer naquele espaço pra preencher o ócio e o tédio da espera?
Passei a namorar as inúmeras obras literárias da biblioteca. Primeiro folheava-as sem compromisso, depois fui lendo-as uma a uma. Com o tempo, percebi que o segredo de como domar as palavras, de como torná-las atraentes e fluentes, estava ali ao alcance dos olhos, na minha cara, debaixo do meu nariz, como eu não tinha percebido antes? Foi paixão à primeira leitura.
Devorei prateleiras inteiras daquela biblioteca e as palavras passaram a escorregar de meus lábios como espinhos macios; ainda balbuciava demais, mas agora as palavras saíam incontidas, desesperadoramente necessárias. Eu precisava expressá-las, libertá-las, declarar meu amor por elas. No princípio, era o medo. Através da leitura, conheci o Verbo, sua coragem e seu imenso amor.
            Mas a “operação traça” ainda me tornava inacessível ao bate-papo informal. Precisei adequar minha linguagem. E até nisso os livros me ajudaram! Apiedado por inúmeros personagens, de todos os tipos, aprendi com os livros a ler também as pessoas, perceber os traços e estilos de cada uma e respeitá-las, amá-las. Os livros me ensinaram a me esquecer do próprio umbigo pra viver as aventuras e desventuras dos outros. Hoje não sei mais se apenas convivo com os livros ou se vivo neles, com eles – a cada página que viro em meu caminho é um novo romance (em todos os sentidos), uma nova realidade (nunca sei se real ou fictícia), a minha vida ganha novas vidas e, nesta lida de lidas diárias, vou encontrando uma humanidade mais compreensiva e infinitamente melhor!


sábado, 15 de julho de 2017

Aprendendo a Recomeçar com Maria Emilia de Oliveira

Hoje é um dia superespecial, pois uma fodástica estrela lírica nasceu neste dia: a formidável poetaluna teresopolitana Maria Emilia de Oliveira!
Conheci a arte lírica de Maria Emilia quando ela estava no sétimo ano e me entregou um poema (ainda inédito aqui no blog) em homenagem ao filme/livro “Battle Royale” e, depois, fui altamente recomendado pelo mestre-professor-poetatletamigo medalha de ouro Genaldo Lial para prestar atenção nos escritos delas. Atualmente cursando o oitavo ano na Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, Maria Emilia vem brilhando nos saraus da escola e mantém uma escrita lírica profunda e intensa.
Hoje posto um destes fodásticos poemas de Maria Emilia, o lírico-filosófico “Recomeçar”.
Comecemos e recomecemos, amigos leitores, com esse formidável poema de Maria Emilia!

Recomeçar

Para cada sofrimento
Uma ferida
Para cada vida
Uma partida

Para cada morte
Um choro
Para cada nascimento
Um sorriso

Para cada depressão
Um corte
Para cada amor
Um sorriso

Para cada abraço
Um alívio
E em cada final
Um recomeço
Pois a vida que se vai para uns
Começa para outros.


sexta-feira, 7 de julho de 2017

Microconto classificado de humor: De volta para o futuro 4, uma versão brasileira Carlos Brunno Produções Artísticas

Demorei pra retornar às postagens do blog, mas volto em alto estilo: hoje trago meu microconto de humor “De volta para o futuro 4”, recentemente classificado para publicação na coletânea do 7.º Concurso Microcontos de Humor de Piracicaba/SP 2017. O microconto é uma homenagem à fodástica trilogia “Back to the future”, clássico da década de 1980, no qual o jovem Marty McFly (Michael J. Fox) viajava para o passado e para o futuro no DeLorean DMC-12 modificado pelo Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd) para tornar-se uma máquina do tempo. Escrito após assistir às principais notícias de um jornal, meu microconto brinca com a possibilidade “e se McFly viajasse para 2017, seu olhar dos anos 1980 acharia que ele realmente viajara pro futuro?”
Voltemos para o futuro no DeLorean DMC-12 de McFly, amigos leitores!

De volta para o futuro 4

  Malária, racismo, peculato. McFly retorna desolado:
  - Doutor, que fiasco: a máquina do futuro só viaja pro passado!


domingo, 25 de junho de 2017

Cesse tudo o que a Musa antiga canta que hoje é Anielli Carraro quem brilha, canta e encanta!

Essa solidão compartilhada de hoje, eu começo diferente: anuncio a heroína estrela lírica da postagem, parafraseando Camões:
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre soberano
A quem Dionísio e Vênus obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta:
Comemora outro ano de eternidade
A estrela mais lírica da cidade!
Hoje comemoramos mais um aniversária da Mestra Divativistartistamiga Voltarredondense Anielli Carraro, vencedora do Prêmio Olho Vivo 2013 na Categoria Poeta, e quem ganha presentes liricamente fabulosos são os amigos leitores, pois também hoje compartilho minhas solidões poéticas com mais que fodásticos poemas e prosa poética desta formidável  e premiada divartistamiga, da Vitrine Cultural e das muitas outras Voltas Culturais Que a Volta Redonda dá!
Que sua lira iluminada e fascinante nos acompanhe nessa viagem pela leitura, amigos leitores!

A brisa dos novos tempos entrou pela fresta da porta, pousou seu perfume no meu sonho enquanto eu dormia e depois sussurrou no meu ouvido, suas palavras mágicas. Deitou seu olhar morno sobre a minha pele e me atiçou os pelos.
A brisa suave me tomou a alma, e enlaçou meu corpo, desenhou minhas curvas e ensaiou meus versos.
Depois de tudo, ficou o riso solto ao vento, espantando pra longe o que não nos pertence e a impressão de que nunca foi tarde.
Anielli Carraro

Nas ruas irrompem primaveras vorazes.
Nos castelos se escondem em festas de gala,
os asquerosos algozes.
Vastos rios de rostos confusos se esbarram
e morrem em silêncio nas suas casas mudas,
com suas olheiras profundas,
seu uísque predileto e seus ternos cinzas.
Anielli Carraro

Há dias em mim, que desfolho tempestades,
ventos do norte me arrastam pela casa,
rompendo meus olhos cerrados
e minhas cortinas fechadas.
Há manhãs em que acordo suave brisa,
remanso breve pra um leve despertar,
medida suave e precisa
e certa doçura no olhar.
Há noites em que sou outra
e ela me confessa sem receios,
sobre seus medos, seus anseios,
me beija antes de dormir
e volta antes que eu possa acordar.
Anielli Carraro

Eu espero,
como a primavera espera o fim do inverno,
como as marés aguardam a lua cheia,
como o sentimento espera o olhar.
Eu espero,
como se o tempo pudesse acelerar o instante
e o desejo fosse a desculpa perfeita,
para o beijo que sonha em chegar depois.
Eu espero,
enluarada de anseios,
repleta de risos,
feito flor molhada de chuva,
feito manhã banhada de sol.

Anielli Carraro

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Solidões Compartilhadas: Os superfodásticos versos ferinos de Albinno Oliveira Grecco

Hoje tenho a honra de compartilhar minhas solidões poéticas com um poetamigo superfodástico que eu admiro demais: Albinno Oliveira Grecco! Autor da página de poemas “Versos Ferinos” no Facebook (segue o link pra curtir, ler, reler fodásticos poemas e refletir:  https://www.facebook.com/albinnogrecco/ ), Albinno é um dos grandes destaques da poesia sul fluminense contemporânea, sempre abordando temas atuais – como a corrupção política e o estado alarmante de crise moral em nosso país – e lírico-filosóficos (como os perigos da traição, da lamentação desnecessária, etc). Para ilustrar de forma ampla essa solidão compartilhada, trago 3 poemas da página “Versos Ferinos” (relembrando o link pra curtir, ler, reler fodásticos poemas e refletir:  https://www.facebook.com/albinnogrecco/ ): “Safadas raposas”, “Sabor amargo” e “Arena Brasil”.
Em tempo:  Albinno Oliveira Grecco está entre os dez poetas indicados da região para o Prêmio Olho Vivo 2017. E você, amigo leitor, pode votar nele no seguinte link  a seguir: http://zip.net/bmtKQS. É só fazer o login pelo Facebook e votar!
Em tempo II: No ato cultural em favor da Greve Geral ,que acontecerá em Valença/RJ no dia 30/06, pretendo declamar um dos poemas fodasticamente ferinos de Albinno Oliveira Grecco, se o poetamigo me permitir.
Boa leitura ferina, amigos leitores! Abração e Arte Sempre!

Safadas raposas (Albinno Oliveira Grecco)

Raposas temerosas.
Raposas matreiras.
Raposas engravatadas.
Raposas do congresso.
Raposas de propina.
Raposas imorais.
Raposas consensuais.
Raposas marqueteiras.
Raposas ordinárias.
Deitam e rolam nas nossas fuças.
Sapateiam na cara do povo.
O país está jogado ao relento.
Abandonado.
Arruinado.
Achincalhado.
Enxovalhado.
Um verdadeiro corrimão.
Todos passam a mão.
Meu povo, darei o ultimato:
Se isso não terminar, o final não será bom.

Sabor amargo (Albinno Oliveira Grecco)

Qualquer dor física é menor que a traição.
Atire a primeira pedra quem nunca foi traído.
Estejamos convictos de uma coisa:
A traição é corrosiva.
Impiedosa.
Cruel.
Violenta.
Machuca.
Sangra.
Moral abalada.
Arrasada.
Dilacerada.
Estraçalhada.
Estilhaçada.
Dedicação posta em xeque.
Um sabor amargo.
Pôr a mão no fogo por quem não merece.
Só quem é passado pra trás reconhece a desilusão.
Portanto, minha senhora!
Portanto, meu senhor!
Não lamentem o leite derramado.
Não se descabelem por migalhas.
Não se desesperem por ninharias sentimentais e amorosas.
O que não mata, fortalece.
Aprendemos com os erros.
Somos gratos por todas as traições.
Somos maiorais as nossas quedas.
Arrumem-se!
Resignem-se!
Ergam as cabeças!
Pois o melhor da vida é (re)começar!

Arena Brasil (Albinno Oliveira Grecco)

Povo brasileiro. Povo enganado.
Povo à deriva. Povo atordoado.
Fatigado.
Exaurido.
Arrebentado.
Estraçalhado.
Ferido.
Injustiçado.
Lesado.
Fudido.
Por um demente.
Temeroso demente.
Ordinário matreiro demente.
Ordinária raposa matreira.
Conturbada previdência.
Tememos a ignorância.
Ignorância desenfreada.
Ignorância desmedida.
Aposentadoria inalcançável.
Deformada aposentadoria.
Desarticulada aposentadoria.
Nação brasileira. Nação proletária.
Nação alienada. Nação pão e circo.
Nação comodista.
O bolso vazio.
Sem salário.
Sem ordenado.
Cartão estourado.
Conta no vermelho.
Engravatados abastados.
Corporativos engravatados.
Fazemos o papel de trouxas.
Nos permitimos ser chamados de trouxas.
Infelizmente.
Estamos na cova dos leões.
Enorme arena chamada Brasil.
Eternas marionetes.
Do poder.
Do porco poder.
Do podre porco poder.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Chicó, João Grilo, o Padeiro e a Pedra Filosofal de Seu Suassuna

Nem sempre consigo homenagear/escrever sobre todos os ídolos das artes que me inspiram e merecem eternas lembranças e aplausos, mas, dessa vez, não posso deixar passar o aniversário de 90 anos do eterno Ariano Suassuna (o camarada nasceu em 16 de junho de 1927), autor de obras-primas como o "Auto da Compadecida", "O Santo e a Porca" e "O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta".
Não sei de onde veio a louca inspiração; só sei que o esquete saiu escrito por mim assim:



Chicó, João Grilo, o Padeiro e a Pedra Filosofal de Seu Suassuna

Em frente à padaria.
CHICÓ: Ah, João, tô que num me guento mais de fome, mas meu bolso tá uma fartura só: farta dinheiro, farta crédito... só sobra mesmo essa vontade faminta de comer até as lombrigas sorrirem depois de tanta fartura!
JOÃO GRILO: Pois deixe comigo, amigo! Tá vendo esse livro que eu peguei emprestado a perder de vista da biblioteca municipal? Esfrega teu polegar na terra e carimba o dedo aqui na primeira folha. Pronto! Agora entremos na padaria! Esse livro será nosso passaporte pra desforrar essa fome desnutrida!
(Os dois entram na padaria)
JOÃO GRILO: ‘Dia, seu Padeiro! Procurava alguém sapiente como o senhor pra me auxiliar de forma precisa numa transferência remunerada de fortuna que carrego aqui comigo. Só alguém ilustrado como o senhor sabe dar valor à riqueza que preciso penhorar com demasiada urgência, seu Padeiro!
PADEIRO (desconfiado): Não me venha com suas artimanhas, sua raposa matreira dos diabos! O que você teria que pode tanto assim me interessar?
JOÃO GRILO: Olha só, sapioso amigo, o que tenho aqui comigo: é uma Pedra do Reino!
PADEIRO: E quando pedra é feita de folha e palavra, seu malandro?
JOÃO GRILO: Ora, meu ilustre sapioso amigo, estás escondendo sua sapiecidade de mim? Nunca ouviu falar da Pedra do Reino do Seu Suassuna? É uma pedra real, do Reino, um livro, uma pedra filosofal daquelas que os bruxos americanos procuram há milhares de anos, é uma preciosidade sem tamanho! Não há riqueza que pague tanto saber, nobre amigo das Letras do trigo!...
PADEIRO: Ora, então é só um livrinho de um defunto já há muito desfalecido! Não vale nem a rosca que queimei na fornada da madrugada!
JOÃO GRILO: Assim você me ofende e ofende a sua própria sapiecidade, nobre rosqueiro ilustrado! Primeiro que Seu Suassuna num morreu que o cabra, todo mundo sabe, é eterno, conforme foi registrado pelas ordens dos acadêmicos do Brasil. É estudado e inteirado dos assuntos, sapioso Padeiro, sabe das lendas verdadeiras que vêm nas bocas dos Bonner e Clydes do Jornal Nacional. Segundamente que assim ofende o meu amigo Chicó, que possuía grande apreço pelo Mestre Suassuna!
CHICÓ: Não sei o quanto o amigo Padeiro foi maldoso, não achei tanto assim, mas já sinto o peito ferido, um arrepio por machucar meu apreço, me dói tanto quando alguém tão educado como o senhor Seu Padeiro desrespeita o Seu Suassuna que a minha barriga dói de tanta tristeza ruim!
JOÃO GRILO: Pois é, mas toda sapiciedade tem seu grau de ignorância, Chicó. Até alguém sapioso como o ilustre Padeiro tropeça no próprio saber e perde a oportunidade de fazer um negócio mais bonífico pra ele que pro meu camarada aqui...
PADEIRO: ...
JOÃO GRILO: Seu Suassuna, na pausa de sua eternidade, antes de cochilar no Eterno, autografou com seu polegar nobre esse livro mágico, dos altos pilares do reinado letrado, e, como era muito amigo, compadrecido maior de meu amigo Chicó, concedeu a obra ao meu camarada, cuja missão era repassar esse amuleto de sabedoria ao mais sapioso homem desse sertão. E num é que o Chicó, com a mente amarfanhada pelo desalento da perda do compadre Suassuna, num me cismou que o mais sapioso dessas terras era o major Antônio Morais – que cá entre nós, Seu Padeiro, sabemos que o tal é uma mula completa em comparação ao senhor, ilustre e sapioso confeiteiro. Então Chicó já vinha com uma troca equivocada do artefato genial de Seu Suassuna por um sitiozinho sem valor do ignorante Morais. Mas ainda bem que eu intervim antes que Chicó desfizesse a última promessa ao compadre finado que agora descansa, mas não morre jamais  Aproveitando a senilidade do major, foi só darmos um tempo sem falar com seu Antônio Morais pra que o cabra esquecesse o negócio e, agora, tanto tempo depois, após longas análises de perfis e entrevistas com os grandes gênios da região, confirmamos o que eu já sabia: o mais sapioso dessas terras é o senhor, Seu Padeiro, e, mesmo que nos oferecesse uma bagatela – uns 12 pães com mortadela, uns 3 litros de leite, umas roscas caprichadas mais uns sonhos que sonhar é bão demais – a Pedra do Reino autografada com o polegar nobre de Seu Suassuna há de ser sua, meu nobre confeiteiro das Letras.
PADEIRO (confuso e encabulado): Fico honrado, mas meio desconfiado...
JOÃO GRILO: “Dá o livro ao mais sapiente dessa terra, compadre Chicó!” Não foi isso que Seu Suassuna disse, Chicó?
CHICÓ: Não sei se ele disse dessa terra ou do universo, João, só sei que foi prometido assim.
JOÃO GRILO: Pois é. E ao dito, eu só acrescentaria o que não foi dito, mas estava escrito nos olhos do eterno desfalecido que não morre jamais: “Mesmo que o cão seja sapiente, mas tão ruim que não desse nem uma duziazinha de pães aos que buscaram incansavelmente o cabra mais sapioso e merecedor de tamanha fortuna!”  (olha pra cima) Tudo bem, Seu Suassuna, seja feita vossa vontade! (vira-se para o padeiro) Toma o livro, sapioso Padeiro, dou-te a fortuna, apesar do seu jeito descrédulo; és o mais sapiente e, mesmo nos sendo ingrato, preciso fazer isso, pra não amarfanhar a última vontade do Seu Suassuna. Vamos simbora, Chicó, Seu Suassuna está satisfeito com nosso concedimento da fortuna do Eternizado ao Seu Padeiro. Já a ingratidão deste, deixe que Nossa Senhora com ele se resolva nos zap-zap do Juízo Final.
Minutos depois, João Grilo e Chicó saem da padaria, com seus 12 pães com mortadela, uns 3 litros de leite, umas roscas caprichadas mais uns sonhos que sonhar é bão demais! 


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Chuva de música, psicodelia poprrockprogressista e poesia: A nova cor do som do Canteiro

Ontem, na chuvosa noite de terça-feira, 13/06, cumpri uma promessa antiga: finalmente visitei a casa do mestre-poetamigo Roberto Esteves Siqueira Jr. no Canteiro, em Valença/RJ, e tive a oportunidade de trocar meus livros mais recentes com ele e, glória dos deuses da psicodelia poprrockprogressista!, de participar e assistir ao fodástico ensaio de sua banda, a Banda do Canteiro, formada por ele (guitarra e voz), Carlos Roberto (percussão, vocal e dança), Edinho Batera (bateria) e Vany Junior (baixo). Foi uma noite fabulosa de muito som e poesia (não, não há registros de fotos ou vídeo; alguns momentos fodásticos só ficam registrados no facebook da memória).
Fiquei tão empolgado com o show que acabei escrevendo um poema em homenagem à banda. Espero que os músicos-amigos e amigos leitores gostem.

A nova cor do som do Canteiro
Em homenagem e à moda de A Banda do Canteiro

Após a porta, existem as portas, outras portas,
sou viajante na tempestade buscando abrigo na casa do som, no lar do lirismo:
“Olá, louco amigo, eu vim conhecer as harpas, tambores e violinos modernos
que você me prometeu.”
A noite nas minhas costas recebe o primeiro beijo inodoro da chuva iluminada
e a violência das gotas d’água frenéticas outrora contidas
são pancadas pacíficas, macias,
que acompanham os tons, semitons, harmonias e inexistentes microfonias
de meus velhos e novos amigos, que tocam pra si numa dimensão paralela, coletiva.
Agora um cachorro me sorri latindo em frente ao portão invisível,
declamando algum roteiro que nunca foi escrito pra Fellini filmar;
a nova cor do som de Canteiro tem as pétalas róseas de Floyds infinitos,
cheira ao espírito juvenil de um nirvana que flutua contra o precipício,
aceita o gingado das folhas pueris que balançam nos ventos da liberdade
e traz em sua base as árvores seculares que fazem sombra pra chama não se apagar:
“Ainda é cedo pra envelhecer o desejo, velho companheiro, ainda é cedo,
ainda há muita arte pra se tocar.”
O relógio acompanha a banda sem mexer os ponteiros,
mas o verdadeiro tempo insiste em passar,
então um último solo de guitarra pra outra nota de chuva acompanhar,
então o baixo, cada vez mais baixo, anunciando sua partida
pra outro dia, outra noite, outro depois, retornar
e a bateria hipnótica vai diminuindo a aceleração progressiva,
acompanhando as mãos múltiplas do percussionista
que se prepara pro último toque, pra canção encerrar.
È aí que as portas temporariamente se fecham, todos partem, é hora de descansar,
mas,às minhas costas, a primeira porta, a que abriga as outras portas,
falsamente se fecha, fica entreaberta.
A chuva ainda intensa, mas agora alucinadamente serena
alerta cada um dos morros extensos e receosos do Canteiro:
“Não temas o silêncio, velho companheiro, não é o fim, e sim outro entremeio,
outro dia, outra noite, nós voltamos, tu podes esperar!”