sábado, 7 de abril de 2018

O Neo Romantismo Serrano


Nas últimas décadas do século XVIII, um movimento artístico, político e filosófico chamado Romantismo conquistou a Europa e, depois, o mundo, pregando uma visão de mundo contrária ao racionalismo e ao iluminismo.
A arte do sonho e da fantasia, com autores cada vez mais subjetivos, voltados para si mesmos, para o drama humano, para os amores trágicos, para os ideais utópicos e para os desejos de escapismo, tornou-se um sucesso na Literatura da época.
Agora, logo no início de 2018, os poetalunos do 2.º Ano do Ensino Médio do Centro de Ensino Serrano, em Teresópolis/RJ, estudaram esse antigo movimento literário e, com poemas de sua autoria, iniciaram um novo movimento: o Neo Romantismo Serrano. Eis alguns desses novos poemas:

Por você eu choro,
Por você eu morro.
Você é o brilho,
O brilho que me traz paixão.
A paixão que eu sinto
É maior que o Mundo,
Esse imenso Mundo
Com tantos perigos...
Estou aqui por você.
Lucas da Costa Pinto Cabral e João de Oliveira Neto
Paris é bela de noite e de dia,
como os olhos de uma criança.
Tudo passa, mas a solidão não.
O amor nasceu,
mas quase morreu,
como um judeu na Alemanha de Hitler.
Então, amada, não perca tempo
e venha me amar
que estou te esperando
no mesmo lugar.
Thalita Dias Pereira e Gabriel Correira Fernandes


Desde o primeiro dia em que te vi
Sabia que eras minha.
Olhares fumegantes
Derreteram meu coração de pedra
E acabaram contagiando
Todo o meu corpo e alma.

Mas olhares aterrorizantes
Infectaram meu olhar sublime e doce.
No final, sempre dá o esperado:
Felicidades de um inferno
E o coração partido do outro.
Giorgio Alessandro Ferreira da Cunha Filho e
Maria Antônia Sequeira Gomes
               
Melancolia

Sem ti não dá pra viver.
Como explicar o que sinto por ti?
Essa dor que me mata aos poucos...
Sem você eu fico louco!

Não dá pra negar
O brilho que vejo em teu olhar.
Fica ofegante a minha respiração
Só de pensar na dor de te amar.

Daqui a pouco vou morrer
Sem poder te dizer
O que sinto por ti.
               
Essa melancolia
Que intimamente me guia
No dia a dia,
Não me deixa parar de pensar
Que nunca vou deixar de te amar.
Letícia Cardoso de Lima e Letícia Alves de Medeiros

domingo, 25 de março de 2018

Karina Silva, uma garota, um poema (alguém que como eu ama Nirvana e Ramones)

Hoje esbarrei com a artistamiga Luana Cavalera e ela me lembrou de que hoje é um dia muito especial: é dia em que os deuses da poesia comemoram mais um aniversário de vida da fodástica artistamiga Karina Silva. Isso me fez lembrar de como ando atribulado e esquecido (como pude me esquecer de tão importante data?), me fez lembrar de que não vejo minha amiga e parceira lírica há tempos, de que há tempos não realizamos os outrora tradicionais e undergrounds Saraus Solidões Coletivas, de que há tempos não escrevia; o aniversário de Karina me fez lembrar de mil coisas líricas e bonitas que há tempos eu esquecia.
Por isso, o poema de hoje é dedicado a ti, Karina, e a todas as musas líricas que nos salvam do esquecimento da poesia que resiste a crueza atarefada do dia a dia. Feliz aniversário, Karina, comemoremos com poesia!

Uma garota que, como eu, ama Nirvana e Ramones

Seus cabelos são vermelhos
Como os de Sonja, a Guerreira,
Como os da Viúva Negra,
Como os da andróide rebelde e confusa
De Ghost in the Shell.
Ela é todas as musas ruivas e fatais
De um paraíso nerd inabalável.

Já foi cavaleira de famoso reino zodiacal,
Já foi aventureira do universo espectral,
Já transpôs todas as barreiras entre o mundo físico e o astral.

Não ouse invocá-la sem cachaça e violão.
Não lhe ofereça carne ou corrupção.
Deixa a natureza fluir
Em seu coração,
Ame gatos, cães e urubus
E terá sua benção.

Ela é uma canção reggae com guitarras grunges em kamikaze distorção,
Ela é a neta mais querida do homem que nasceu há mais de mil anos atrás,
A defensora de Atenas e da liberdade de lutar e sonhar,
É uma garota que, como eu, ama Nirvana, Ramones e a coletiva solidão,
É minha amiga Karina, heroína, musa, rainha,
Estrofe inédita repetida
Por coros de anjos loucos que defendem dos frutos proibidos a libertação,
Ela é a paz contida
No olho de um sereno  furacão,
Ela é um poema tranquilamente aflito,
Cujos versos lindos sempre me trazem a salvação.

sábado, 10 de março de 2018

Neve Quente no Verão Chuvoso de minha Existência: Balada de inverno para minha mãe biológica Barra do Piraí


Há pouco estive andando (virtualmente, claro) pelo facebook e li uma mensagem de meu pai, Carlos Fernando, me lembrando de que neste dia 10 de março comemoramos o aniversário de Barra do Piraí/RJ, minha cidade de origem.  Hoje é outro sábado chuvoso (parece que escolhi bem em fazer uma espécie de recolhimento nesse fim de semana como fiz no anterior), não estou com a menor vontade de sair, alterno meu tempo entre correções (a vida de professor já é árdua – mais árdua ainda é a do de Português, Redação e Literatura – pelo menos os textos e avaliações que ando corrigindo têm sido ótimos, ufa!), assistir séries que eu curto (encerrei a maratona de temporadas de “Better Call Saul” [sim, aquela do advogado que aparecia em “Breaking Bad” – sabe como é, uma série puxa outra, etc] e as de super-heróis da DC do canal CW [ok, é meio supernovelinha, mas o prazer de ver os meus heróis favoritos dos quadrinhos em live action, ah, não tem preço, curto muito]),  ler um pouco e ouvir música, alternando novos e velhos CDs como David Bowie, Nirvana, Caetano & Gil, Pitty, Paralamas do Sucesso, Pearl Jam, Zumbis do Espaço, Biquíni Cavadão e Lana Del Rey (sim, meu gosto é mais rock, mas ouço de quase tudo um pouco). Bem, e o que isso tem a ver com o aniversário de Barra do Piraí, a cidade onde nasci? Não sei, mas parece que o clima, o momento, tudo contribui para que eu compartilhe hoje o meu único poema que fiz para a cidade que me originou.
Minha relação com Barra do Piraí sempre foi meio que a do filho pródigo: passei a infância por lá, a base de minha formação inicial foi lá, mas os momentos mais marcantes passei em viagens para a vizinha Valença (onde depois residi na adolescência, juventude e início da fase adulta e onde descobri a poesia, a arte escrita, tornando a Princesinha da Serra minha principal cidade afetiva), entre outros lugares; retornei à cidade natal nos anos 2000 para trabalhar e , um tempo depois, cursar Letras na Ferp-UGB (ou seja,  a cidade me deu a formação básica e a universitária), fiz muitos amigos, fui em bons shows lá, tenho boas lembranças das duas fases em que vivi lá, mas sempre que pude escapei para as cidades dos arredores e as mais distantes. Havia algo entre Barra do Piraí e eu que não se solucionava: havia poucos espaços culturais, raros interesses, momentos e lugares para eu realizar eventos artísticos, que é uma das coisas que mais amo fazer. Esse fato contribuiu para dar uma pitada de amargura (daquele tipo santo da casa não faz milagre) em nossa relação.
O poema que posto hoje “Balada de inverno para minha mãe biológica Barra do Piraí “ foi publicado em meu 9.º e mais recente livro “O Nada Temperado com Orégano (Receitas poéticas para um país sem poesia e com crise na receita)” (2016) e foi escrito nesse processo de idas e vindas à cidade – sempre considerei esse poema em um estado meio de incompletude, mas ficou assim mesmo, talvez sua completude seja parecer incompleto. Esse poema já deveria ter ido para a panela do meu quinto livro “Eu & Outras Províncias – Progressos e Regressos” (2008), por mais que fosse um corpo estranho no livro que mais homenageio minha cidade afetiva Valença, mas não ficou pronto a tempo. É quase um poema-resposta aos queridos amigos barrenses (queridos mesmo, sem ironia – amo demais meus amigos da cidade onde nasci, cresci e, após um hiato, voltei e me formei professor de Português) que me cobravam em minha poética uma identidade mais barrense (esta acabava ficando meio oculta em meu lirismo pelo fato-mágoa de jamais ter conseguido desenvolver um projeto lírico sólidaona cidade onde nasci). O poema é quase que um confessionário de culpas e desculpas entre a cidade onde nasci e eu, sempre mais identificado com Valença, e traz um tempero inédito, com versos-molhos antigos conservados em novos olhos-óleos, um gostinho a mais no mexido de moshs mesclados outrora mantidos no armazém do esquecimento.
Feliz aniversário, Barra do Piraí, cidade onde nasci, Arte Sempre e boa leitura, amigos leitores!

Balada de inverno 
para minha mãe biológica 
Barra do Piraí

É tarde, Barra do Piraí...
Surpreendo-me envelhecido,
irreconhecível em teu colo frio
nesta noite de calor.
Apresentas-me a tua nova pele pálida,
tuas novas máscaras geladas
de dama enrugada pintada de lua nova
na noite de gala de volta ao nada,
ainda exibindo a face cortada por trens agora privatizados
que continuam atravessando sua pele pública
e cansada das lidas diárias.
A maquilagem não apaga tua inusitada frigidez ardente,
impassível Barra do Piraí,
apenas renova minhas antigas tristezas
de querer ser teu e parecer nunca te pertencer
- fiz vários poemas para ti, mas tu nem viste,
preferiste o barulho das fábricas, o crescimento do comércio,
enquanto meu lirismo adormecia em teu descrédito
a poemas de filho biológico criado em horizontes estrangeiros...
Somos conhecidos, convencidos,
fingidos estranhos, musa mãe muda mudada Barra do Piraí,
e por isso essa saudade de reuniões familiares que tivemos,
mas não aproveitamos
e por isso essa tempestade plácida de pedra que nos amolece,
somos um mundo de palavras não ditas,
um ciclo de travessias incompletas;
és minha identidade turva,
como as águas de nosso rio Paraíba do Sul
e eu sempre te nado de volta, Barra do Piraí,
mas continuamos afogados nesse ir e vir,
cúmplices culpados pelo crime de não nos admitir,
ouvindo um ao outro,
mas sempre fingindo não nos ouvir.
É tarde, Barra do Piraí,
mas continuamos aqui,
tu próxima distante em mim
e eu conservando traços que nego,
inegavelmente vindos de ti,
por isso essa balada agridoce de paixão amarga,
por isso essa volta desengonçada,
por isso nos reencontramos aqui,
eu também te amo, Barra do Piraí,
pode ser tarde pra dizer,
mas é sempre tempo de sentir.
É tarde, nós sabemos,
mas ainda é tempo, há tempos, há tempo, Barra do Piraí!


A mais que fodástica arte escrita de Camili Chermouth, em prosa e verso


Yeah, amigos, retorno ao blog hoje, dia 9 de março,  um dia após o Dia Internacional da Mulher (e antes que os trouxas machistinhas reclamem perguntando qual é o Dia Internacional do Homem, informo que tal data existe no calendário da ONU desde 1999, mas, evidentemente, com menor repercussão: é dia 19 de novembro – além do Dia do Homem, outra data pouco divulgada sem comemorações ou feriados, comemorado no dia 15 de julho, desde 1992, por iniciativa da Ordem Nacional dos Escritores). Nesse retorno ao blog, devido à proximidade com o Dia Internacional da Mulher e lembrando da imensa variedade de jovens artistas mulheres, compartilho hoje minhas solidões poéticas com a mais que fodástica artistaluna Camili Chermouth, da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva, na região rural de Teresópolis/RJ.
Lecionei Português na turma de Camili por apenas 1 bimestre, quando ela estava no sexto ano (hoje está no 9.º), por conta de carência de professores da minha disciplina naquele período. Foi uma hora extra abençoada, afinal conheci muitos artistalunos talentosos que iniciavam o longo e árduo caminho da segunda fase do ensino fundamental e, mesmo que tenha sido um breve período, já era perceptível a dedicação e talento de Camili Chermouth para as tarefas da escola e para a arte escrita (ela foi um dos destaques – ainda em fase de amadurecimento, claro - na produção textual de lendas urbanas, atividade que propus e apliquei na época). No ano passado, devido aos saraus realizados na escola, mesmo não dando aula na turma dela, tive o privilégio de conhecer diversos textos dela (crônicas, prosas poéticas e poemas), uns apresentados como destaque pela Professora Flavia Araújo e outros que me foram entregues pela própria autora para que eu avaliasse seu potencial – é claro que, com isso, ela foi uma das artistalunas de destaque de 2017 nos saraus da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva.
Nesta postagem, compartilho dois textos – uma crônica/prosa poética refletindo sobre o amor e um poema indignado com o mundo no qual [sobre]vivemos (perceberão logo que a jovem e talentosa artistaluna tem preferência por temas nos quais ela possa explorar melhor o estilo lírico-filosófico) -, ambos de superagradável leitura e de uma visão de mundo muito poética e madura.
Nos fascinemos, amigos leitores, com a mais que fodástica arte escrita em verso e prosa de Camili Chermouth!

A dor de um amor

            Amar dói, mas amar é bom. Por mais que doa, a gente sempre acaba amando, se apaixonando; por mais que tudo dê errado, nós sempre corremos atrás, lutamos e, às vezes, é bem em vão, por isso que dói, machuca. E assim o amor às vezes nos divide ao meio, em duas pessoas. E assim parece fácil, mas não é: a indecisão é bem dolorosa, é difícil de decidir o certo, a quem seguir, de quem cuidar e a quem demonstrar carinho e amor. Um dia isso vai acontecer com você e você irá entender, parece uma bobagem, mas não é, é um problema bem grande.
            Estou há algum tempo nessa situação, numa divisão amorosa delicada, como “uma rosa cheia de espinhos tentando não machucar o cravo”, ou seja, tentando não magoar as pessoas, tentando não feri-las, aí você para pra pensar: o que você faria no meu lugar?
            E você sabe que não sabe o que fazer. Mas fazer o quê? O jeito é esperar e seguir aquele velho ditado: “O tempo resolve tudo; ele é o melhor remédio”.
(Camili Chermouth)




Que mundo é esse?

Igualdade, qual significado?
Respeito, qual significado?
Amizade, qual significado?
Respeito, qual significado?

Que mundo é esse?
Onde nada anda tendo sentido,
Onde ninguém tem importância?
Que mundo é esse?
Que cor da pele difere caráter,
Que situação financeira define posição?
Me explique, por favor:
Que mundo é esse?

Não entendo o porquê
De tantos pré-julgamentos,
Tantos males sem nem sequer motivos,
Onde igualdade não existe,
Respeito muito menos,
Amizade virou uma inimizade qualquer,
Onde quem demonstra sai magoado...
E o caráter, onde fica nessa bagunça?

O que é caráter pra você?
É apenas uma coisa?
São várias coisas?
Pra mim, o caráter é e sempre será
Uma das maiores qualidades de alguém!

Quem tem caráter não sai por aí
Apontando o dedo
Para dizer malfeitos,
Quem tem caráter ama,
Cuida, tem respeito,
Defende a amizade
E respeita a igualdade!
(Camili Chermouth)



domingo, 25 de fevereiro de 2018

Poemas comemorativos: Magia Psicodélica para Gilson e George

O poema de hoje, inédito, foi escrito ontem, durante o "Zungu da Comuna", evento em comemoração ao aniversário de Gilson Gabriel e de George Harrison. A festa rolou durante a tarde de ontem até o anoitecer no quintal da Quinta das Bicas, na casa de Erli e de Gilson Gabriel. Os humanos e artistas mais convencionais podem até questionar a pessoalidade do poema, mas fazer o quê:: o poema me saiu assim, deletilírico, e é assim que o publico.


Magia psicodélica

Uma nuvem cinza de Londres
(talvez vapor do último trem
no qual Sweet Lorde George embarcou e tocou
o último solo de uma canção
que jamais compartilhou)
flerta com os céus de um bairro sereno
de uma cidadezinha qualquer
num canto do Brasil.
A tarde é nublada, mas os ventos me sorriem,
magia psicodélica do dia em que comemoramos
o aniversário de Gilson Gabriel
e de outros poetas suseranos
da arte democrática, sem absolutismos.
Hoje é o dia em que a chuva ameaça chorar,
mas se controla - nenhuma lágrima vai nos ferir;
hoje é só uma triste ameaça que não nos ataca,
Hoje é uma tarde feliz que nos embriaga.
É hora de glória, de orar
sem obrigação de rezar para um qualquer deus,
hoje somos todos deuses ateus
abençoados pela santa cerveja
que os amigos deixam sobre minha mesa.
Outro amigo me abraça,
há quanto tempo a vida passa
sem te ver?
Outro amor me afaga,
olá, folia desvairada,
é bom rever você!
É outra festa da vida sem despedidas,
é a vida insistida,
latente, infinita,
brindada com pinga com mel
sem ressaca, sem fel:
é outra tarde de incont(roll)ável alegria
na casa festiva de Gilson Gabriel.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Conto inédito para outro eterno retorno: Rosana (Ou Dançando na chuva com você)

Imagem da instalação "Rain Room",
montada no Barbican Centro de Londres

Faz um bom tempo que não venho aqui atualizar as postagens do blog. Os motivos desta vez são diversos e, ao mesmo tempo, muito parecidos com os de outras vezes: 1) motivo mais novo: estou numa fase de nova rotina de trabalho, com novos desafios e aprendizados – por sinal e graças a Deus, bastante ativa, fato que me deixa bastante atarefado; 2) motivos que são problemas que vão além de quaisquer previsões: internet que não pega – sim, a ‘bendita’ Oi  na casa de meu irmão, cujo wi fi capturo nos fins de semana em Valença/RJ, ironicamente chamada de “Velox” e “Total”, designações completamente opostas a um serviço de m... que a operadora ‘disponibiliza’ (estávamos sem internet desde 27 de janeiro e, depois de mil ligações e uma coleção de protocolos, nada se resolveu)  -, problemas de saúde com familiares, etc; 3) motivos de sempre: eu mesmo, inimigo meu – às vezes, procrastino um pouco depois de momentos febris de preparação de textos literários e/ou material de aula, rola aquela preguiça, às vezes desânimo, recolhimento existencial que se contrapõe ao virtual, etc. Bem, seja como for, estou de volta e, como sempre, com novas e velhas novidades para os amigos leitores!
Para (re)começarmos (afinal, o blog é assim como o diário que é assim como relatar experiências diárias que é assim como viver e reviver cada momento que é o essencial do ser: seguir em frente, sempre trazendo as experiências que ficaram pra trás, num eterno “restart”, passando por longos ciclos de começar e recomeçar os dias o tempo todo), bem, pra (re)começarmos, trago um brinde aos leitores fiéis: um conto inédito meu chamado “Rosana”, previsto para meu próximo livro, cujo nome provisório é “O estranho que me vejo”. Apesar de ser uma obra fictícia e curta, se encaixando melhor com o gênero textual conto, sua estrutura e inspiração flertam com a crônica pela proximidade de fatos do cotidiano e ter base em alguns acontecimentos reais (o que também aproxima o texto do relato autobiográfico, mas cuidado: é um conto, ou seja, o narrador pode parecer estar numa confissão honesta e/ou o autor está apenas desenvolvendo uma nova forma sincera de mentir, iludir o amigo leitor – por exemplo, o protagonista de outro conto meu “A última poeta”, do livro “Diários de Solidão” [2010], já postado aqui no blog, vive sendo confundido comigo, o autor, fato que me dá ares de extrema satisfação [como afirma {acho que a frase é de} Caio Fernando Abreu, todo escritor é um cretino, logo saber que sua farsa convenceu outrem só dá alegria a nós, escritores ).
Bem, seja como for, o conto “Rosana” tem tudo a ver com essas noites meio chuvosas. Espero que gostem, amigos leitores! Boa leitura e Arte Sempre!

Rosana (Ou Dançando na chuva com você)

Havia uma garoa assim caindo naquela tarde distante... Éramos dois adolescentes saindo mais cedo da escola (o professor faltara, ah! surto de hepatite abençoada!). Corríamos na chuva, em direção das nossas casas. Eu, nem delinquente, nem nerd, eu apenas eu. Você, nem a mais linda, nem a mais genial, você apenas você. Dois jovens tão jovens; você um pouco menos jovem que eu. Nem amigos íntimos, nem desconhecidos ligados pelo acaso – apenas colegas de escola, estudantes na mesma turma, quase vizinhos, saindo mais cedo da aula numa tarde chuvosa.
Em algum momento, a chuva parou. Possivelmente o céu ainda nublado estava satisfeito com sua traquinagem: estávamos encharcados e cansados de correr. Então você olhou para o chão e observou as poças que a chuva deixou no asfalto esburacado. Eu fiquei ali acompanhando seu movimento e seu silêncio, tentando imaginar o que você planejava... Então você esboçou um sorriso inicialmente enigmático, chutou uma das poças e atirou lama contra mim. Enigma desvendado: seu sorriso era pueril, de adolescente voltou a ser criança. Naquele momento, a menina mais linda, como eu jamais a vira antes.
Revidei a brincadeira, chutei outra poça mais próxima de mim, atirei lama em sua direção e você fugiu, pediu para eu parar. Sapeca, você queria sempre me atingir sem jamais ser atingida. Outro sorriso pueril de rendição, cada vez mais a menina mais linda de meu pequeno universo.
Sorrindo de volta pra você, me distraí, esqueci minha adolescência, minhas invenções de problemas, meu crescimento inconstante. A brincadeira mantinha um ritmo pueril, até que reparei o quanto estávamos molhados e que a alvura e o pano barato de nossas camisas de escola acusavam transparências, quando o uniforme ficava umedecido, como naquela hora...  Foi nesse momento que reparei pela primeira e única vez nos seus seios, o desenho perfeito deles pintado pelas gotas de chuva sobre sua camisa umedecida.
Não consegui disfarçar o olhar imprudente e safado, de novo um adolescente com hormônios descontrolados, Adão revisitando o corpo de Eva, despido do olhar sagrado. E você, não mais menina, parou de sorrir e cobriu a quase nudez com o caderno molhado, Eva ofendida pela profanação do olhar intruso de Adão. Seu movimento lento em defesa do pudor contrastava com a velocidade dos acontecimentos anteriores. Baixei os olhos, de novo um adolescente bobo, o pecador inocente mais envergonhado de todos os universos, Adão condenado à expulsão do Paraíso.
Ficamos calados por intermináveis segundos, as nuvens negras sem chuva pareciam mais pesadas que outrora, então você disse que era melhor seguirmos os nossos caminhos. A frase ganhou terríveis duplos sentidos. Subimos a escadaria para o nosso bairro com passos pesados, apenas os degraus ainda molhados testemunhavam a estranha tristeza dessa nossa via crúcis. Não havia mais leveza em nós; a inocência falecida repousava um sono intranquilo, entremeado de pesadelos, enquanto ultrapassávamos os degraus, buscando um ar, tantas vezes farto, mas, naquele momento, tão rarefeito...
Falamos pouco, quase nada, até cada um seguir seu caminho e alcançar a sua respectiva morada. Na despedida, um adeus sem graça. Nunca mais faríamos companhia um para o outro no trajeto de casa pra escola, da escola pra casa... Teríamos breves contatos superficiais na sala de aula, algumas trocas de palavras necessárias para quem convive na mesma prisão social. Nem Éden, nem maçã – de Adão herdei apenas o sonho de um paraíso perdido inatingível e muita vergonha. E você seguiu seu rumo indiferente – Eva de uma costela que não perdi, Eva de outro Adão.
O ano letivo acabou e nos formamos sem muita badalação. Algum tempo depois, você se mudou e eu também mudei. O tempo continuou passando, nos mudando e muito pouco nos esbarramos.
Hoje (tanto tempo depois!), a chuva antiga me reencontrou: numa noite de tempestade, enquanto eu bebia num bar próximo a minha casa, um amigo se aproximou, puxou assunto e, no meio da conversa, me contou que você se matou. Ele nem sabia que eu a conhecia; como é comum em cidades pequenas, meu amigo apenas me contava as parcas e trágicas novidades desse cantinho meio escondido de tudo, até de Deus. Seu nome, associado a uma morte que você própria se causou, ecoou em minha cabeça cheia de lembranças adormecidas (ah, de novo o Éden perdido e inatingível, de novo eu Adão lamentando uma parte perdida de mim, uma parte perdida que jamais perdi!).
Lembrei-me de você, Rosana, ah, seu nome calado em meus lábios envergonhados por tantos anos! Meu amigo percebeu que fiquei meio distante após a notícia de sua morte, Rosana, então tentou mudar de assunto, reclamar do mau tempo e da falta de entrosamento do time para o qual torcemos, ou melhor, sofremos. Mas eu não consegui acompanhar mais os pensamentos de meu amigo, Rosana, eu não consegui mais esquecer você. Assim como eu, a chuva insistia em tocar sua melancólica sinfonia do lado de fora do bar.
Sem mais assunto ou sorrisos, me despedi de meu amigo, saí do bar e caminhei na chuva. Vi várias poças d’água que se formavam com a tempestade... Tanto tempo passado, Rosana, e ninguém conseguiu consertar direito os buracos históricos das calçadas e do asfalto de nosso bairro. Então eles permanecem aqui, feito aquele antigo eu, feito eu agora, feito você outrora, formando poças e mais poças. Ameacei chutar uma delas, mas hesitei. Medo de chutar alguma gota do passado, medo de escorregar, medo de me machucar outra vez, medo, simplesmente medo, triste e sem explicação.
Por isso agora danço entre as poças enquanto falo com uma impossível você neste momento – sou Adão ridículo falando sozinho e evitando os vazios do Paraíso Perdido. E essa dança é tão delirante, Rosana, que, por mais que lhe conte, nunca saberei explicar se as gotas da chuva que molham meu rosto nesta hora são puras ou se estão misturadas com alguma lágrima que deixo cair... E, por mais que eu dance, lhe conte e evite explicar, Rosana, sempre caio em alguma das diversas poças, não consigo mais evitar...

Imagem da instalação "Rain Room", montada no Barbican Centro de Londres


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Eu poderia não te contar, poema de Diana Paim, contado pelo Luz, Câmera...Alcino! Veteranos

A postagem de hoje é muitíssimo especial por 2 motivos:
Motivo 1) traz de volta às Solidões Compartilhadas do blog a mais-que-fodástica ex-artistaluna e superartistamiga teresopolitana Diana Paim, com o tocante e profundo poema “Eu poderia não te contar” – naquele estilo marcante da artistamiga, com versos de peito aberto, escancarado, emoção à flor da pele e divisão/linguagem poética cujos versos flertam com a prosa.
Motivo 2) além do poema, compartilho com os amigos leitores um vídeo/curta metragem que marca o início de um novo projeto artístico-cultural de continuidade a um outro projeto,  já estabelecido há 7 anos. Inspirado nas ideias da Professora Margareth sobre o futuro dos ex-artistalunos do Luz, Câmera...Alcino!, decidi expandir o universo do grupo e reuni 3 gerações do Luz, Câmera...Alcino! no mesmo curta metragem, iniciando o Luz, Câmera...Alcino! Veteranos (para ex-artistalunos da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva que tenham vontade e disponibilidade de fazerem mais vídeos/curtas metragens com o diretor-professor-poeta-pateta que vos escreve).
Neste curta, adaptamos o poema “Eu poderia não te contar” de Diana Paim (a autora fez parte do Luz, Câmera...Alcino! 2011/2012) com atuação, filmagem, roteiro e codireção da também poeta e atriz Thayslane Freitas (da geração Luz, Câmera...Alcino 2013) e declamação de Thaynara Medeiros (Luz, Câmera...Alcino! 2017). O resultado é um curta metragem divinamente melancólico (como o eu lírico do poema de Diana Paim propõe) que agrega novos estilos cinematográficos ao já versátil Luz, Câmera...Alcino!
A arte não tem limites, amigos!

O poema inspirador: 
“Eu poderia não te contar”, de Diana Paim


Eu poderia não te contar,
Eu poderia também deixar pra lá,
Eu poderia me queixar,
Eu poderia até mesmo menosprezar,
Mas eu não consigo, é mais forte que eu.
Você foi a melhor coisa que me aconteceu,
Nossa amizade nasceu no dia que te conheci
E desde então eu sempre tive você aqui
Erros eu sempre cometi, mas fazer o quê, eu sou assim;
O melhor de mim sempre tentei dar para te ver sorrir.
Joelhos ralados são fáceis de curar,
Mas uma amizade ferida é quase impossível recuperar.
Quero que você entenda que dei o melhor de mim,
Quero que saiba que sem você não consigo nem sorrir.
A distância é fácil ultrapassar,
Mas a mágoa é impossível  deixar pra lá.
Eu não sei bem o motivo de você estar assim,
Eu não sei bem o que eu fiz,
Mas, vindo de mim, acredito em qualquer coisa,
Afinal faço tudo errado.
Essa dor que sinto é maior que qualquer coisa,
Pois não sei viver sabendo que magoei o presente mais valioso que Deus me deu.
A vida é apenas uma jornada de momentos bons e ruins,
Mas, sem você para eu poder contar e me alegrar ou até mesmo chorar, ela não vale de nada.
Eu te amo do fundo do mar até o céu
E, se eu te magoei, me desculpa, eu sempre decepciono quem eu quero proteger...

O curta – o primeiro do Luz, Câmera...Alcino! Veteranos - inspirado no poema inspirador: 
Luz, Câmera...Alcino apresenta "Eu poderia não te contar", um poema de Diana Paim




Título: Luz, Câmera...Alcino apresenta "Eu poderia não te contar", um poema de Diana Paim
Gênero: Drama Cotidiano Lírico
Origem: Teresópolis/RJ, Brasil, 2017
Curta metragem inspirado em poema homônimo de Diana Paim (veterana do Luz, Câmera...Alcino! 2011/2012)
Produção:
Luz, Câmera...Alcino!
Roteiro:
Prof. Carlos Brunno e Thayslane Freitas
Direção e edição:
Prof. Carlos Brunno
Codireção:
Thayslane Freitas
Cenário:
Casa de Thayslane Freitas
Filmagem (utilizando celular e pau de selfie) e atuação:
Thaslane Freitas (veterana do Luz, Câmera...Alcino! 2013)
Declamação:
Thaynara Medeiros (Luz, Câmera...Alcino! 2017)
Trilha sonora:
"Cold morning", de Audionatrix
Você pode usar esta música em qualquer um de seus vídeos, mas você deve incluir o seguinte na descrição de seu vídeo:
Cold Morning de Audionautix está licenciada sob uma licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/...)
Artista: http://audionautix.com/
"Secrets Conversations", de The126ers
Gravado num dia frio de 2017, em Teresópolis/RJ
Este curta metragem é o resultado coletivo da união de 3 gerações do Grupo Teatral Escolar Luz, Câmera...Alcino! (a autora do poema inspirador fez parte do grupo nos anos de 2011 e 2012, a atriz, câmera, roteirista e codiretora participou do grupo em 2013 e a declamadora é artistaluna do grupo em 2017)
Agradecimentos especiais à professora Margareth do Carmo, que sempre estimulou projetos com ex-alunos do Luz, Câmera...Alcino!
Seja na escola, na rua ou em casa,
Seja hoje, amanhã ou outrora,
Uma vez Luz, Câmera...Alcino!
Sempre Luz, Câmera...Alcino!
A arte desconhece limitações temporais ou geográficas,
A arte é pra sempre!
Teresópolis/RJ
2017