quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Meu Bate-Bola Fictício Premiado: Miserável Futebol Clube

Ontem, começou a primeira rodada da tradicional Taça Guanabara (com um empate  de 2 a 2 entre Botafogo e Portuguesa), fase do Campeonato Carioca 2018 na qual os clubes considerados ‘maiores’ (Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo) e os clubes ‘pequenos’ melhores classificados no campeonato do ano passado participam com outros dois ‘pequenos’ classificados na primeira fase, Tal fato me fez lembrar do meu conto “Miserável Futebol Clube”, que posto hoje no blog.
Livremente inspirado na matéria “O jogo dos miseráveis”, de Flávio Adauto, publicada na Folha de São Paulo, em 31/08/1975 (a reportagem inspiradora, que recebeu o Prêmio Esso de Informação da época, mostrava que mais de 7.000 jogadores de futebol, em 21 Estados, viviam sem direitos previdenciários, apesar de pagarem impostos), “Miserável Futebol Clube” narra as desventuras do universo futebolístico em 1975. Com este conto, conquistei a honraria de “Destaque Sul Fluminense” no Prêmio Maria José Maldonado de Literatura 2017, realizado pela Academia Volta-Redondense de Letras.
Esse meu conto premiado também pode ser encontrado na Coletânea Digital “Prêmio Maria José Maldonado de Literatura 2017 - Antologia de Textos Premiados”, que pode ser baixada no site da Academia Volta-Redondense de Letras (segue o link: https://www.avl.org.br/livros ).
Espero que gostem, amigos leitores! Boa leitura e Arte Sempre!

Miserável Futebol Clube

- Intão, fessô?... O que o dotô disse? Eu vô ficá bão, né?
O rapaz finalmente acorda e me dirige a palavra. Encontro-me de frente para o rapaz, de 20 atléticos anos, uniforme sujo, corpo completamente suado, a respiração ainda arfante, no ritmo do jogo que pra ele encerrou bem antes da hora. Em contraste ao porte extremamente saudável do rapaz, o corpo exausto, atirado numa maca improvisada, sugere uma implacável derrota, a perna esquerda irremediavelmente fraturada. Estamos sozinhos no vestiário, os outros jogadores estavam muito apreensivos com a cena e pedi que saíssem. A tragédia já trazia drama demais para mim e para o garoto.
Retomo comigo mesmo os lances anteriores: o estádio pequeno, mas cheio de olheiros, jogo duro, placar empacado no zero a zero, o garoto quis mostrar serviço; extremamente habilidoso, craque nato, possível reforço de algum time de maior expressão, ele driblou o zagueiro e já partia para o gol e para glória, até o outro zagueiro dar aquele carrinho criminoso por trás. Apito do juiz, pênalti marcado, zagueiro adversário expulso, confusão, mesmo os culpados querem ter razão e o garoto ali, desmaiado, inconsciente da penalidade, fratura mais que exposta, chamo a atenção do capitão da nossa equipe – vai ver o garoto, pô! -, corre-corre, cadê o médico, caraca!, maca vagabunda, enfermeiros despreparados, “é o que deu pra arrumar”, afirma o dirigente pão-duro, alguns jogadores finalmente se desligam do frenesi do jogo – o camisa 10 tá mal, professor! Será que sai dessa? -, respondo que não sei. E agora o garoto me encara, busca desesperadamente uma esperança impossível em meu olhar falsamente firme.
Queria lhe dizer: já vi esse filme, rapaz, você é mais um que vai pro chuveiro pra sempre e logo, logo perceberá que nessa profissão não temos nenhum seguro, o governo planeja, o presidente da República Ernesto Geisel diz que apoia uma medida de assistência ao atleta profissional, diz que vai trazer uma solução pro desamparo da gente, mas até agora tudo promessa, somos artistas ilustres de um circo de luzes sem brilho e nesse miserável picadeiro da Confederação Brasileira de Desportos ainda não há planejamento, só desorganização, você está perdido, irremediavelmente perdido. Penso mil coisas em breves segundos, mas até o momento não lhe respondi nada, o garoto quer uma resposta, Otávio, vai jogar um papo furado ou vai dizer a verdade? Desvio o olhar, dou de cara com o calendário da Coca-Cola, com os dizeres “Isso é que é” ao lado da marca do refrigerante, na parede do vestiário – sexta-feira, 13 de junho de 1975, eu sabia que pôr o time pra jogar numa data dessa ia ser de lascar -, finalmente respondo, opto pelo esquema mais covarde, retrancado:
- Vamos ver, garoto, vamos ver...
Dá para perceber no semblante dele a decepção com minha resposta. A face bronzeada e iluminada como se um sol sempre traçasse um sorriso em seu rosto, o jeito brincalhão, sempre tentando manter o ânimo dos colegas, apesar dos frequentes atrasos de salário, toda elegância feliz do jovem se desfaz em uma ameaça de nebuloso pranto. Fraturado, esse será o nome do garoto agora, seu nome de batismo é passado, esquecimento, nem o mais fiel integrante de nossa humilde torcida se lembrará da breve passagem do rapaz pelo nosso pequeno clube. Mas o garoto não desiste, finge que não manja ou realmente não manja mesmo.
- Mas, fessor... é só dá um “taime”, né...
-  A fratura é séria, Beto...– desta vez, sai sem pausa. – O diagnóstico do médico, apesar do exame não ter sido completo, não é nada animador, rapaz. Ele te sedou e foi buscar a equipe médica, talvez você ainda não tenha manjado, sua perna esquerda está jogada pro lado, quebrada, daqui de onde vejo é como se ela estivesse fora do seu corpo. Acho que você vai ter que começar a pensar num outro meio de seguir em frente fora dos campos. Sou experiente nisso, garoto, sinto muito, mas acho que você vai ter que pendurar as chuteiras... – eu mesmo me interrompo, aterrorizado com meu surto de sinceridade. Deve ser cansaço, fico noites sem dormir e estou velho demais pra prosseguir nessa carreira, nem o bicho do jogo do mês passado os desgraçados me pagaram. Putz... Mas sou como o garoto... o que vamos fazer da vida sem a única coisa que nos prestamos a fazer? Aposentadoria não temos, apesar de pagarmos aquela porcaria de INPS. Como sobreviver sem esse maldito futebol? – Me desculpe, Bebeto, estou sendo brusco com você, rapaz...
- Brus...quê, fessô?
Ah, meu Deus, o que vai ser desse moleque? Não deve ter nem o primário completo; uma vez que pedi aos jogadores que anotassem frases de incentivo ao lateral Jorginho, que ficaria lesionado por uns 3 meses, esse garoto demorou um século para anotar um “Milhoras, amigu” e mais meio século para assinar o próprio nome. Tive que dar uma bronca pra acelerar o processo. Ideia imbecil também aquela que eu tive... é, realmente preciso me aposentar, mesmo sem aposentadoria pra tirar.
- Eu quis dizer: me desculpe se fui grosso, Bebeto. – me esforço pela segunda vez para não esquecer seu nome, não lhe adiantar o desamparo ao qual o garoto vai ser atirado.
- ‘tendi, fessô!
Não sei porque esses moleques me chamam de professor, tomara que essa moda não pegue em outros times; não tenho nada demais pra ensinar a esses garotos, necessitam é de escola, alfabetização, um professor de verdade. Mas o fascínio com a bola gosta de flertar com a ignorância. A Loteria se aproveita dessa ingenuidade para faturar em cima desses pobres coitados e não dar nem um bicho minguado pra eles. Nem pra mim. Mal o Conselho Nacional de Desportos fatura uma merreca do montante fabuloso que a Loteria arrecada.
- Me’rmão tá no Framengo, fessor, tá de reserva, mas é fera e já ganha muito mais cruzero qui eu por mês. Quem sabe dispois de mim recuperá vô pra lá...
Deve ser uma espécie de trauma, o garoto parece estar em permanente delírio. Acabou, Bebeto! Agora é só desgraça: primeiro Fraturado, depois Desempregado, caçando bico, sem outro ofício conhecido fora das quatro linhas. Meu Deus, ele mal ouviu a última frase que eu lhe falei! Ele me encara mais uma vez, contorcendo um sorriso dolorido, seus olhos brilham. Me repito, de volta à retranca:
 - Vamos ver, garoto, vamos ver...
Miserável Futebol Clube... somos hábeis atletas do jogo dos miseráveis...
Ouço ruídos de alguém entrando no vestiário. É o doutor com a equipe da ambulância. Ao lado deles, Silvio, o vice-presidente do nosso clube, consternado. Pelo jeito, o nosso presidente nem quis dar as caras pelo vestiário hoje. Seja como for, aceno para eles e disfarço o alívio de vê-los se aproximando; os breves minutos com o garoto tiveram o peso de uma eternidade.
- O médico já está chegando, garoto. Vou indo... Fica em paz e melhoras, rapaz.
- Fessô...
Mais eternidade pesando sobre meus ombros cansados desse jogo truncado. Forço uma paciência que há tempos eu já perdera:
- Pois não, garoto...
- E o pênalti? O juiz marcô, né? Nosso ponta-direita qui bateu? Foi gol?
Sorrio. Como esse garoto ainda consegue me fazer sorrir em meio a toda essa tragédia? Deve ser dom, deve ser...
- Sim, o juiz marcou e foi o Mazão mesmo que bateu. E sim, garoto, foi gol, goleiro prum lado e bola pro outro. Foi gol graças a você, garoto, Parabéns!
Bebeto sorri. Cumprimento o médico, sua equipe e o Silvio. Antes de sair, cochicho nos ouvidos do último:
- Silvio, só te peço uma coisa: não conta pra ele que, depois do pênalti, o time adversário fez dois gols e virou o jogo, por favor. Se o garoto perguntar o placar, muda de assunto, finge que não ouviu. Deixa o garoto curtir, pelo menos por alguns segundos, a vitória efêmera.
Silvio dá um leve tapinha nas minhas costas, em sinal de concordância com o meu pedido. O clube não nos paga devidamente, mas, pelo menos, finge ser simpático aos nossos desejos mais simples.
Dirijo-me até a saída. Será que passarei a noite sem dormir mais uma vez?




segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Retrospectivas e retrocessos ferinos nos olhos líricos de Albinno Oliveira Grecco

Ao estudarmos a etimologia (área linguística na qual se faz o estudo da origem e da evolução das palavras) do prefixo “re”, descobrimos que ele é de origem latina e significa “volta, repetição” ou “reforço”. Logo, para REiniciarmos as Solidões Compartilhadas do blog e REforçarmos a aura lírico-coletiva do blog, compartilho mais uma vez minhas solidões líricas com o mais que fodástico poetamigo voltarredondense Albinno Oliveira Grecco (yeah, quem é fodástico sempre REtorna ao blog!) com dois poemas, cujos títulos são iniciados com palavras iniciadas com “re”: a “Retrospectiva ferina”, poema criado por ele após eu desafiá-lo a fazer uma “retrospectiva lírica ferina” de 2017, e “Retrocesso mental”, cujos versos reforçam a regressão de valores e de mentalidade do Brasil. Em ambos os textos, cabe observar o uso de versos cortantes que representam períodos [ou apenas frases] simples e curtos[as] (no caso do segundo poema compartilhado, a experiência poética é ainda mais radical, é quase um poema ‘concreto ferino’ de frases cortantes; o poema quase não apresenta verbos para reforçar a passividade do povo frente ao panorama de retrocessos).
Além dos poemas, trago também um vídeo que registra momentos de Albinno Oliveira Grecco no evento “As Solidões Coletivas das Voltas Redondas e dos Poetas de Aço”, organizado por mim, com apoio de Cláudio Alcântara, do site “Olho Vivo” (veja mais no link: http://www.olhovivoca.com.br/colunistas/6524/carlos-brunno-organizou-tarde-poetica-no-festival-olho-vivo/ ), que aconteceu durante o “Festival Olho Vivo de Artes Integradas”, no Centro Cultural Fundação CSN, em Volta Redonda/RJ, na tarde de 28/10/2017. (Observação: Há outro vídeo acessível na página do site Olho Vivo no facebook – eis o link: https://www.facebook.com/OlhoVivo.ca/videos/vl.162974307765626/1418655684899166/ )
Relembro também que o mais que fodástico poetamigo Albinno Oliveira Grecco possui uma formidável página lírico-virtual no facebook chamada “Versos ferinos” (segue o link para curtir e ler estes e outros fodásticos poemas: https://www.facebook.com/albinnogrecco/ ).
Boa leitura e REleitura dos fodásticos poemas ferinos de Albinno Oliveira Grecco, amigos leitores! Abração e Arte Sempre!


Retrospectiva ferina (Albinno Oliveira Grecco)

Castraram a liberdade do cidadão.
Assediaram a mente da população.
Estupraram os direitos dos servidores.
Tatuaram a testa dos ignorantes boçais.
Ejacularam na fuça do proletário.
Queimaram os sonhos da futura geração.
Estapearam os cornos da nação.
Meteram o pé no rabo do povão.

Retrocesso mental (Albinno Oliveira Grecco)

Brasil do Santo Ofício.
Retrocesso medieval.
Retrocesso mental.
Regressão.
Depravação.
Perversão.
Reversão moral.
Doente hipocrisia.
Demente hipocrisia.
O povo segue.
Um atrás do outro.
Cabeça arriada.
No cabresto.
Na rédea curta.
Zumbis imbecis.
Soa a sétima trombeta.
Esmagada mente careta.
Encaretados idiotas.
Jocosos patriotas.
Adoentados políticos.
Adoentados moralistas.
Adoentada sociedade.

Vídeo: Grandes momentos da apresentação de Albinno Oliveira Grecco no evento “As Solidões Coletivas das Voltas Redondas e dos Poetas de Aço”, durante o “Festival Olho Vivo de Artes Integradas”, no Centro Cultural Fundação CSN, em Volta Redonda/RJ, na tarde de 28/10/2017.






sábado, 6 de janeiro de 2018

Soneto para Cony durante a travessia

Hoje o blog se reserva ao luto lírico: o Mestre Mais Que Fodástico jornalista e escritor Carlos Heitor Cony morreu, por volta das 23h de ontem, dia 06/01/2018, aos 91 anos. Como diria o próprio escritor, autor de obras memoráveis como “Quase Memória” e “O Ventre”, "meu epitáfio seria: 'Aqui não jaz Carlos Heitor Cony. Porque, realmente, aquele que for para debaixo da terra não vai ter nada comigo do que sou hoje e do que eu represento'".
Pensando na partida de Carlos Heitor Cony e nas variações climáticas de hoje(ora um sol tímido, ora uma pancada de chuva agoniada, mas rápida), escrevi um poema, meu “Soneto para Cony durante a travessia”.
Cony partiu, mas as obras que ele deixara repousam nas livrarias e bibliotecas. Acesse-as e leve-as ao infinito, amigo leitor.

Soneto para Cony durante a travessia

O sol tímido nas calçadas tristes,
Molhadas por chuvas premonitórias,
Lê trechos de tuas quase memórias
E recita-os para os capins-alpistes:

“Que as palavras cresçam pelas estradas,
Gestem teu ontem no ventre das matas,
Nutrindo de hoje as aves mulatas
Que alam amanhãs nas manhãs frustradas

Resistirás no infinito comum,
Cada leitor será teu factótum,
Espalhando-te pra todos daqui.”

Tudo isto te falaria o sol tímido,
Se astros falassem, se fossem ouvidos,
Mas eis a chuva surda... Adeus, Cony...


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Iniciando o ano relembrando poema premiado: As Voltas Redondas que o passado traz

Ano Novo, velhas postagens novas. Começo as postagens deste ano de 2018, com o poema-homenagem que fiz à cidade de Volta Redonda/RJ, a famosa Cidado do Aço, local que escolhi para passar essa virada de ano mais recente (yeah, com direito a assistir um showzaço da banda Os Paralamas do Sucesso e encontrar fodásticos amigos loucos como Juliana Seabra e Max Pires).
O poema que posto logo abaixo, “As Voltas Redondas que o passado traz”, é o primeiro que escrevo em homenagem a Volta Redonda, cidade de grande efervescência cultural, onde já me apresentei várias vezes,  e foi inspirado em ideias e projetos dos artistamigos Carina Sandré (esse ainda é meio secreto, em processo de gestação) e Rafael Clodomiro, da banda ALira (esse já planejado, mas, devido a aperto em nossas agendas, ainda não completamente concretizado). O poema é resultado de alguns estudos que fiz sobre a História da fundação da cidade e, nele, busquei colocar um ritmo meio ode-hino-marchinha-samba-enredo. “As Voltas Redondas que o passado traz” ganhou ainda mais destaque na minha trajetória lírica, pois, com ele, conquistei a honraria de “Destaque Sul Fluminense” no Prêmio Maria José Maldonado de Literatura 2017, realizado pela Academia Volta-Redondense de Letras.
Esse meu poema premiado também pode ser encontrado na Coletânea Digital “Prêmio Maria José Maldonado de Literatura 2017 - Antologia de Textos Premiados”, que pode ser baixada no site da Academia Volta-Redondense de Letras (segue o link: https://www.avl.org.br/livros ).
Espero que gostem, amigos leitores! Feliz 2018 e Arte Sempre!




As Voltas Redondas que o passado traz

Dando voltas pela Barra Mansa antiga,
encontramos uma Volta Redonda pequena
que ainda escondia a Volta Redonda imensa
que aquele outrora oitavo distrito se tornaria.

Já foi lugarejo, depois freguesia,
viu o café cair, o gado leiteiro se sobressair,
foi terra diminuída até ver a escravatura abolida,
tornou-se distrito, depois Eldorado,
para finalmente assumir a vastidão voraz e sublime
de seu definitivo aço.

Largou o católico Santo Antônio,
outrora em seu nome colado,
pra se tornar Volta Redonda grande,
com mais tendência à ciência que ao bispado,
mas, para não abandonar o passado cristão,
manteve o divino nas orações
de seus devotos operários.

Nas reviravoltas do progresso,
a Voltinha cresceu, virou cidade,
e, nas revoltas contra o retrocesso,
a Volta Redonda estabeleceu a sua liberdade!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

De Castro Alves a Slim, passando por Pessoa: O poema rap com título-rasura do jovem e talentoso Alexandre de Oliveira Bispo

Depois de um período de procrastinação (o blogueiro-escritor-poeta-professor-pateta que vos escreve adora passar o breve período inicial das férias escolares em modo preguiça total, chegando a ficar quase completamente offline pro real e pro virtual), o blog retorna com velhas novidades: professores-amigos, parceiros de profissão e do blog “Diários de Solidões Coletivas” têm atuado voluntariamente como “olheiros culturais”, como formidáveis “caça-talentos artísticos” e contribuído para enriquecer cada vez mais o marcador “Solidões Compartilhadas” deste blog com o destaque de jovens, talentosos e fodásticos poetalunos!
Recomendado pela incansável e superlírica professora-escritoramiga Flavia Vargens, hoje compartilho minhas solidões poéticas com o supertalentoso Alexandre de Oliveira Bispo, poetaluno carioca que, neste ano, cursou o primeiro ano do ensino médio na Escola Municipal Francisco Cabrita. Seu poema, cujo genial título é uma rasura (isso mesmo, amigos leitores, é uma rasura, um recurso poético neoconcreto refletindo um momento histórico borrado pela falta de humanidade e pelo desrespeito com o próximo: a escravidão), foi inspirado na poética de Castro Alves, mais que fodástico poeta romântico baiano, estudado nas aulas de Leitura e de Português realizadas na Escola Municipal Francisco Cabrita (foi trabalhada inclusive a versão musical de Caetano Veloso para o consagrado poema “Navio Negreiro” [que pode ser encontrado no álbum “Livro”, de 1997, de Caetano Veloso]).
O inspirado (e inspirador) poema de Alexandre de Oliveira chegou a se classificar no Concurso Maratona Escolar Castro Alves, realizado pela Academia Brasileira de Letras (yeah, o rapaz já começou merecidamente no topo!). A poética alexandrina oliveirana traz um estilo próprio, cheio de referências tradicionais a ultramodernas, mesclando o tom oratório de Castro Alves com Slim, caetaneando Pessoa com um inédito heterônimo rapper, e registra um grito-protesto-poético meticulosamente bem arranjado (e com um verso final arrasadoramente fodástico!).
Rasuremos as rasuras escabrosas de nossa história, não apagando-as, mas marcando-as com a poética memória, e reflitamos e protestemos juntos com o fodástico poema do talentoso Alexandre de Oliveira Bispo, amigos leitores!





Época de escravidão
Te apresento Tráfico Negreiro
Primeira vez que me emociono
Com um poema de um brasileiro...
... Depois de refletir, vou agradecer
Obrigado Castro e Princesa, por estarem na minha mente!
E ajudarem o negro a andar de relógio de pulso,
E não mais de corrente ...
Agora vou falar de minha mãe, que leva seus fardos nas costas
E sem deixar cair se torna uma guerreira!
Nunca trabalhou nas “Casas Bahia”
Olhe o seu estado civil: não é mulher solteira!
Mulher de pele escura,
Com esse rap busco fazer barulho... Arte, Cultura!
Dessa cor, tenho muito orgulho!
Poeta dos escravos: somos liberdade!
Poeta dos escravos: somos verdade!
“O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
Mas que dor real...sem explicação...
A dor é verdadeira...É a ESCRAVIDÃO!
Inspiração de Pessoa, eu senti...
Também ouvindo um só rap, de um homem de nome Slim!
E hoje infelizmente digo:
A “ESCRAVIDÃO” não teve fim!


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Solidões Sertanejas Compartilhadas: O Sonho de Cleber e Cauan (e agora também do Luz, Câmera...Alcino!)

Dando uma breve olhada nos eventos de hoje, descobri que hoje está rolando um Karaokê Sertanejo no Beco Beer, pub famoso aqui de Teresópolis/RJ. Não, essa constatação nada tem a ver com ‘uma balada que eu queria muito ir’ (nada contra o gênero musical, apesar de não ser das minhas preferências, porém: 1) peguei o dia de hoje pra procrastinar, ficar de preguiça, não fazer nada; 2) o evento já começou e tá uma chuva sinistra lá fora; 3) prefiro uma balada mais rock, ou seja, a opção de amanhã [a fodástica banda Sabottage] segue mais minha tendência pro fim de semana). É que o evento de hoje no Beco Beer, pra ser mais exato a palavra “sertanejo” no nome do evento, me relembrou o último vídeo que produzi com o Luz, Câmera...Alcino 2017, um clipe musical para a canção “Sonho”, da dupla sertaneja Cleber e Cauan (há mais três vídeos após este, mas o que posto hoje foi o último feito com integrantes apenas deste ano – os três outros foram elaborados em parceria com os veteranos, remanescentes de grupos do Luz, Câmera...Alcino de anos anteriores).
Mesmo no corre-corre de fim de bimestre, com pouquíssimo tempo para novas gravações, o Luz, Câmera...Alcino! 2017 ainda teve fôlego para realizar mais um curta metragem do gênero Clipe Musical, desta vez inspirando-se no sucesso sertanejo "Sonho", da dupla Cleber e Cauan. Esse clipe marca as estreias de Laryssa Fernandes e de Carlos Emanuel como protagonistas em vídeos do Luz, Câmera...Alcino! (antes eles fizeram parte do esquete “Luz, Câmera... Alcino! apresenta: Mulher-Maravilha No Xadrez da Guerra e do Amor: A origem da Justiça e do Super Xeque Mate” e participaram, respectivamente, como entrevistada e câmera man do "VI Torneio Xeque-Mate - O superdocumentário"). O clipe também marca as estreias de Kaylanne Pimentel, Nathacha Corrêa, Shayane Silva, Liz Lainne e Tamara Pinheiro (as três últimas também fizeram parte dos mesmos projetos dos quais Carlos Emanuel e Laryssa Fernandes participaram).
Outra curiosidade interessante é que este é o primeiro vídeo do Luz, Câmera...Alcino! com locações no centro da cidade (filmamos uma cena no Cine Show, no Shopping Teresópolis, após assistirmos o filme "Liga da Justiça").
E não é só isso: a própria dupla Cleber e Cauan curtiu o twitter que apresentava vídeo do clipe da canção "Sonho" que o Luz, Câmera...Alcino! fez.

Ainda não assistiu, amigo leitor? Pois está postado logo abaixo... Bom Entretenimento e Arte Sempre!


Título: Luz, Câmera...Alcino apresenta "Sonho", de Cleber e Cauã
Gênero: Clipe/Drama Musical
Produção: Luz, Câmera...Alcino!
Origem/data: Teresópolis/RJ, Brasil, 2017.
Direção: Prof. Carlos Brunno
Roteiro: Autoria Coletiva
Atores:
Carlos Emanuel Fernandes (Ex-namorado/  Invasor de sonhos)
Laryssa Fernandes (Ex-namorada/Sonhadora)
Shayane Silva (amante)
Tamara Pinheiro (Amiga da ex-namorada/Parte do sonho)
Kaylanne Pimentel (Parte da multidão/Parte do sonho)
Lidiane Silva (Parte da multidão/Parte do sonho)
Liz Lainne Charles (Parte da multidão/Parte do sonho)
Nathacha Corrêa (Parte da multidão/Parte do sonho)
Isabela Corrêa (Parte da multidão)
Alessandro Rodrigues (Parte da multidão)
Thaynara Medeiros (Parte da multidão)
Cenário: Escola Municipal Alcino Francisco da Silva e arredores, Cine Show Teresópolis
Agradecimentos especiais a Genaldo da Silva Lial pelo empréstimo de colchões e colcha
Figurino: Artistalunos do Luz, Câmera...Alcino! e Prof. Carlos Brunno
Apoio: E.M.A.F.S.
"Sonhos" é uma canção da dupla Cleber e Cauan
Visitem o site da banda: http://www.cleberecauan.com.br/site/
O vídeo foi gravado numa tarde e noite nublada de 2017, nas regiões rural e urbana de Teresópolis/RJ.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A primavera sem flor na ausência de um poema, de Layza Silva (em verso e vídeo)

Qual escritor nunca sentiu aquela terrível fase de falta de inspiração, aquela impotência lírica na busca de algum escrito que está na ponta da língua, mas não sai de lá, fica preso em nós e, mesmo transbordando à nossa volta, em todo nosso ser, não conseguimos transportar pro papel? Nem os eus líricos do Mestre-Poeta-Maior Carlos Drummond escaparam desse momento dramático – o poema “Poesia” mostra essa extrema dicotomia: o poema (concreto) não sai, mas o momento transborda em poesia (abstrato). E qual escritor ousaria começar sua carreira lírica com um metapoema (um poema que fala sobre a própria poesia)? Sim, é preciso muito talento, criatividade e ousadia para isso e esses três elementos sobraram no primeiro(!) poema da jovem poetamiga teresopolitana (recém-ex-poetaluna do 9.º  C da Escola Municipal Alcino da região rural de Teresópolis/RJ, afinal acabara de concluir seu ensino fundamental neste fim de dezembro) Layza Silva.
Com aquele ar meio distraído, quase entediado e flertando com a preguiça, Layza Silva aparentava estar cansada pra quase tudo (os intervalos eram esperados ansiosamente), porém nada disso fez dela uma aluna ruim, jamais: mesmo fazendo-se de cansada, numa falsa sonolência, despreguiçava e fazia as atividades com esmero (claro que tinha uma pressãozinha básica para tirá-la da inércia, né rs), pedia socorro numa coisa ou outra, citava coisas que investigava pela internet ou com amigos, tirava dúvidas, participava das rodas de leitura, declamava poemas em sarau com personalidade. Havia criatividade, sagacidade e um lirismo transbordante nela – o abstrato estava lá, faltava realizar-se concreto. Layza sempre declarava que não era muito ligada em escrita (meus instintos de caça talentos recebiam a declaração com descrédito) e chegou até a confessar vontade em ser poeta, mas, não se sabe por quê, não conseguia escrever poemas (sorria com leve desespero e desânimo, seus olhos meio que brilhavam meio como se trouxesse uma estrela melancólica que tinha brilho, mas não sabia como brilhar). Aproveitei a confissão dela e lhe sugeri dois desafios: 1) largar a preguiça, concentrar-se em quebrar a própria declaração e, consequentemente, desistir de desistir de escrever; 2) diante disso, que usasse como ponto de partida sua própria confissão de fraqueza, ou seja, que escrevesse um poema sobre isso, sobre não ter inspiração, usando as figuras de linguagem e outros conteúdos que aprendeu neste ano. Então, finalmente, seu primeiro poema saiu, formidável, espetacularmente metapoético (só escritores maduros fazem poemas sobre o ato de escrever poema e Layza foi ousada: já fez seu primeiro poema explorando magnificamente o assunto!)!
Fiquei tão empolgado com o primeiro poema dela que pedi aos artistalunos do Luz, Câmera...Alcino que fizéssemos uma adaptação do mais que fodástico poema de Layza Silva, obra prima entregue sem título que batizei de "A primavera sem flor na ausência de um poema”. O poema tem toda a confissão de Layza sobre a dificuldade de inspirar-se, usando recursos que ela aprendera no ano letivo: estão lá as figuras de linguagem, a gloriosa luta pelo verso mais certeiro, até as orações subordinadas entraram nesse metapoema de meigo lirismo na medida exata e leve desesperado ferrenhamente bem trabalhado contra quaisquer dificuldades – é perceptível no poema ver a batalha poética do eu lírico em tentar vencer (e derrubar, paradoxalmente não derrubando) a dificuldade de encontrar inspiração.
A versão em vídeo do Luz, Câmera...Alcino!, posado logo abaixo do poema, é inspirado nesse mais que fodástico poema "A primavera sem flor na ausência de um poema", da poetaluna Layza Silva.  Na A introdução do curta inclui o poema "Poesia", de Carlos Drummond de Andrade (sim, tem tudo a ver com o poema de Layza Silva, e ouso dizer que a poeta faz páreo duro com o experiente e consagrado Mestre Poeta-Maior brasileiro). O vídeo também marca a estreia da poetaluna Thaynara Medeiros (que já teve um poema seu adaptado pelo Luz, Câmera...Alcino!, já postado no blog anteriormente, essa artista está em todas as áreas artísticas!) como atriz-aluna do Luz, Câmera...Alcino! É também a estreia de Byanca Lima nos curtas do grupo (antes ela interpretara a icônica Arlequina no esquete "Mulher-Maravilha No Xadrez da Guerra e do Amor: A origem da Justiça e do Super Xeque Mate", apresentado no Torneio Xeque Mate da Escola Alcino! deste ano, evento organizado pelo Mestre-Poetatleta Genaldo da Silva Lial). E atenção: Assistam ao vídeo até o fim, pois possui uma cena Pós-créditos encenada por Byanca Lima!
E, assim, apresento-lhes o mais que fodástico "A primavera sem flor na ausência de um poema", da poetaluna Layza Silva, em verso e vídeo – tenho certeza que ficarão tão fascinados quanto eu, amigos leitores! Bom Entretenimento, Boa Leitura e Arte Sempre!







A primavera sem flor na ausência de um poema

Não sei o que escrever,
As palavras não fluem.
Estou como uma pessoa muda
Que tudo vê e nada expressa.

É como um rio sem água,
Céu sem pássaros,
Primavera sem flor .
É tipo oração subordinada
dependente de uma oração principal inexistente.

Nada tem sentido...
Às vezes me pergunto
O que estou fazendo
E não tenho resposta.

Só queria entender por que é assim...
E, mais uma vez,
O silêncio domina
E não tenho resposta alguma

(Layza Silva – na época, poetaluna do 9.º C da Escola Municipal Alcino Francisco da Silva)


Ficha técnica:
Título: Luz, Câmera...Alcino! apresenta:"A primavera sem flor na ausência de um poema", de Layza Silva
Gênero: Comédia Dramática Lírica
Produção: Luz, Câmera...Alcino!
Origem/data: Teresópolis/RJ, Brasil, 2017.
Inspirado em poema homônimo de Layza Silva
Direção: Prof. Carlos Brunno
Roteiro: Autoria Coletiva
Atores:
Byanca Lima  (poeta sem inspiração)
Livia de Jesus (Musa da Inspiração)
Thaynara Medeiros (Musa da inspiração)
Poema declamado por:
Livia de Jesus
Trilha sonora:
"Tick Tock", de Jimmy Fontanez & Media Right Productions
"Soul Search", de Silent Partner
Figurino:
Artistalunos do Luz, Câmera...Alcino! e Prof. Carlos Brunno
Cenário: Sala de aula do 9.º A na Escola Municipal Alcino
Francisco da Silva
Apoio: E.M.A.F.S.
Gravado em novembro de 2017 na região rural de Teresópolis/RJ.